Cidadania Italiana

Lifestyle julho 18, 2017

De quando comecei com o blog já pensava nesse post, mas preferi esperar até organizar todos os meus documentos. E sim, só consegui essa façanha 13 meses depois. Semana passada finalmente peguei meu passaporte italiano e estou ok com toda a minha documentação. Então vamos lá…

Eu recebo muitas dúvidas a respeito de processos de cidadania e documentos necessários, e infelizmente não consigo ajudar muito. Eu não tenho essas informações pelo fato de que eu não passei por esse processo. O meu caso foi mais “simples” um pouco. Meu avô materno era italiano e automaticamente o direito da cidadania passou para a minha mãe, que passou para mim. Eu nasci cidadã italiana. Então não precisei solicitar o direito a cidadania. O que eu sei é que mesmo assim, não foi nada fácil conseguir concluir minha documentação.

Tudo começou quando eu cheguei na Itália em maio de 2016 e dei início na saga para fazer minha identidade. Meu avô nasceu em Gubbio, na região da Umbria, e teoricamente eu deveria estar registrada na Comune de Gubbio, na pasta do meu avô junto com a minha mãe e tios. Mas não! Eu não estava. Fui questionada se eu realmente seria cidadã, sendo que desde os 18 anos eu recebia no Brasil as cédulas de votação. Fui várias vezes a Gubbio e nada. Ninguém me achava no sistema. Até que depois de muito custo, descobri que eu como cidadã italiana residente no exterior estaria registrada na Comune de Roma Capital. Depois de um certo ano, que não sei dizer qual, todo os cidadãos italianos residentes no exterior passou a ser registrado em Roma Capital. O problema é que nem eles sabiam disso.

Então fui para Roma, achando que minha vida estava resolvida. Mas não! O buraco era mais embaixo. rs. Vi muita gente chegar no guichê para ser atendido e ser muito mal atendido, mandado embora, sair gritando, com raiva, e até chorando. Como bons italianos do sangue quente, os ineficientes funcionários públicos não seriam diferente. Confesso que fiquei assustada. Perdi a conta de quantas vezes fui em Roma, quantas vezes contei a minha história e quantas vezes fui e voltei sem consegui resolver nada. Acho que passei por todos os departamentos daquela Comune. No final das contas, muita gente já me conhecia. hahaha

Depois dessa saga de gritos e incertezas, me acharam no sistema. Mas tinha um problema. Na hora da minha transcrição Brasil – Itália, a abençoada da pessoas que abrir meu registro, me transcreveu só com o meu sobrenome paterno. Que não é o meu sobrenome italiano. O problema não era esse, porque na Itália o sobrenome que prevalece é o paterno. Ok! Mas no meu caso, essa pessoa se esqueceu de fazer uma observação no meu “Ato di nascita”. Que de acordo com a lei fulana de tal, número de tal a tal, (que prevalece o sobrenome do pai), eu Maria Elisa Lucaroni Vilela, em território italiano seria apenas Maria Elisa Vilela. Era só isso! Mas não, ela me registrou direto como Maria Elisa Vilela sem nenhuma observação nem nada. Fui fazer minha identidade e em todos os meus documentos, até então brasileiros, apresentavam os meus dois sobrenomes. Recebi aos gritos a informação de que eu não era eu. No Brasil eu era uma pessoa e na Itália era outra, e teria que provar para eles que eu, era eu. Confuso né!? Eu que o diga. Quanto estresse! Meu Deus! Foi uma verdadeira saga.

Se engana que pensa que eu fiquei calada. Aprendi a gritar como eles! E o que me deixava em choque é que o primeiro contato dos funcionários públicos italianos é sempre com falta de educação. São grosseiros. Não te dão atenção e se não sabem resolver seu caso, simplesmente gritam com você e te manda embora. Mas se você grita mais alto, bate na mesa, e devolve as grosserias, eles resolvem seu problema. Procuram ajuda, ligam pra um, pra outro, te tratam melhor. Dá para entender um povo desse?? Foi então que comecei a resolver a minha vida. Tive que abrir vários processos, e não davam e nada. Até quando Deus colocou um anjo no meu caminho. Conheci um dos supervisores de um departamento, que não só abraçou a minha causa como me ajudou a resolve-la. E eu só conheci ele graças a uns gritos que eu dei, depois de me dizerem que eles não poderia fazer nada. Sendo que o erro foi deles.

Descobri que isso acontece muito. Transcrições erradas, documentos e registros perdidos. E que em muitos casos os italianos que foram para o Brasil no cenário da Segunda Guerra Mundial, mudavam os nomes, sobrenomes, escritas, ai já viu né!? Chega na Itália nada bate e a luta parece não ter fim. Se você que o Brasil é bagunçado, eu acho que somos apenas aprendizes da Itália. Misericórdia! E o tanto de gente que tem dentro das repartições que não fazem ideia do que realmente deveriam fazer. É um sentimento de impotência tão grande, que só quem vive isso consegue entender.

Consegui fazer a minha primeira identidade, que é de papel, com o endereço do Brasil, sem o sobrenome italiano. Para depois entrar com o pedido para fixar residência, fazer o “Codice Fiscale”, “Tessera Sanitária”, para 4 meses depois, conseguir fazer a identidade eletrônica, que possui todos esses dados. Depois disso, tive que entrar com um pedido para voltarem o meu sobrenome materno, ou simplesmente emitirem uma carta documento, em que comprovariam que, eu Maria Elisa Lucaroni Vilela e Maria Elisa Vilela, era a mesma pessoa. E foi o que eles fizeram. Negaram o meu pedido de voltar o meu sobrenome Lucaroni, e emitiram a carta comprovando que eu, sou eu. É mole? E lá se foram mais meses. Só então que eu pude solicitar o meu passaporte italiano.

E lá se foram 13 meses. Esse post pode não ser tão útil quanto você esperava. Mas a minha intenção é te dizer para que não desista. É desanimador mesmo. Mas resista. Seja firme. Grite. Chore. Não aceite um não tem jeito, e ok. Não! Tem jeito sim! Exija soluções! Prazos! Mande emails, ligue, vai atrás. Eu quase desisti, mas fiquei firme. E aqui estou, documentada e usufruindo dos meus direitos como cidadã européia que sou. E não vou parar por aqui não. Quero meu sobrenome italiano de volta sim! É horrível você passar a vida toda escrevendo seu nome completo, e do nada você não poder usá-lo mais. Isso mexe com o psicológico da gente! Rs.

A Itália é uma bagunça danada, burocráticos e estúpidos. Mas é um país maravilhoso e acolhedor. Ahhh o calor dos italianos! Só perdem para nós brasileiros. Itália está não só no meu sangue, como já faz parte de mim. Agora sim posso dizer que sou “ítalo-brasiliana”.

Beijos de luz,

Maria.

 

 

 

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Escrito Por maria lucaroni

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